quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não, não vá pensar na falta de propósito da vida esta noite
sua ambição seria delinear um abismo
pois modéstia você não encontra nem quando vai ao fundo
nem vá saltar as incertezas num punhado de fumo
a marejar os horizontes, os sentimentos e as calcinhas
e as meias trocadas de gaveta com elas
tudo um pouco mais bagunçado do que deveria
em nenhum canto desta casa há fogo
talvez encontre nos fósforos que você roubou dum restaurante
de peixe fresco e trouxe da Califórnia um sentido
talvez observar na faísca a dilatação da fenda
acendesse a capacidade de se iluminar
pelo sabor do vento que foi o primeiro toque
toque que a vida fez no seu rosto lembrança
quando seu corpo era só o luto
de alguém que em ti morreu
talvez este alguém vivificado pelo vento
talvez o acúmulo de nuvens da cor da cidade no céu dela
talvez você seja capaz de juntar um girassol a dura noite
tornar proibido que pessoas com menos de 25 anos possam alguma vez ser tristes
porque isto te faz sofrer
e no fundo é uma ambição ser simples
num gesto mágico
estou tão apaixonada pela densidade de cada coisa
que quero atravessá-las todas com os meus lábios
mas não quero que você traga nenhum peso para dentro
nisso
nem o cansaço nem o medo mas traga um pouco de rigor
a beleza das plantas carregando gestos de saúde
e o fato de que você não consegue mais ver ninguém
como um mestre
porque estamos todos perdidos mesmo
de nós dois, dos dias
talvez você possa acolher o instante
e tornar-se frágil
faz parte dessa sabedoria
assim como você aprendeu nos livros
a ouvir o que você sente
os órgãos também estão cheios de saúde
como os seus amigos que respiram todos os dias
todos os dias têm tantos gestos de saúde
que não acreditariam em você falando tanto
consigo mesma na segunda pessoa.
E tão multiplicadas as vezes no plural.

sábado, 1 de abril de 2017



fazia anos que eu não acordava e assistia um filme, um filme preferido. eu recorro a três filmes quando estou com um buraco no lugar de mim e um deles é o Fritzcarraldo. só neste momento percebi que os outros dois também têm nomes com encontros consonantais imprevistos. seria melhor que eu explicasse isso mais demoradamente?

um filme que me mostra quanta honra é possível ter no dramático, quanta coragem no impossível da afirmação. sou tão estupidamente otimista que, embora tenha que nadar de quando em quando nas marés do ódio e do ressentimento, que eu acabo convivendo com um tal treino das emoções como se me preparasse para uma olimpíada.


num primeiro momento é preciso conhecê-las, reconhecê-las, e depois disto tratá-las com uma firme mão de linho, uma pinça precisa bisturi nas mãos dum ninja, ah a navalha amaciada e morna do coração, que se acessa também com a respiração. pensamento é respiração, respiração é pensamento. mas a maior parte do tempo eu passo a reconhecê-las: "isto que passou como um raio me levantou até os céus e de quando em quando desaparece? euforia"; "essa substância oleosa que me contrai os músculos e chega a doer a cabeça que a controla? o ódio"; "o azul em que tudo está que varia do de fundo a suave nuvem? tristeza" & por aí vão os caminhos do reconhecer. escrever ajuda muito.

sou uma pessoa da música. a maior parte da minha pessoa encontra vida emocional na música. do mesmo modo que uma pintura me mostra como ver a paisagem, o que eu sinto me ensina a sentir. é preciso muito respeito para manejar uma emoção. as realidades esmagam, foi Eliot quem disse que o gênero humano não é capaz de suportar muita realidade e disse isso soltando um pássaro: go! go! disse o pássaro que não é de Eliot e nem mora neste poema e no entanto nele voa. o gesto mágico do que voa num poema.

eu mesma me enovelo muito me desaprendendo hábitos emocionais. eu digo pra eles: saltem, eles não saltam; eu digo pra eles: fiquem, eles saem correndo. treinar as mãos no desastre: este poderia ser um dos meus nomes, dizendo sempre adiante, por que não ultrapassar uma montanha com um barco em cima? pelo menos poderemos sorrir do absurdo tanto que nos reconheceremos nele e por inteiro.


quarta-feira, 29 de março de 2017

a vida no entanto se alarga do inconstante ao pântano
e nos malabarismos de lidar com os estilhaços
de pessoas que eu venho me tornando
eu que já depositei sementes que viraram árvores
atravessei algumas vezes o oceano Atlântico
conheci o Pacífico no último outubro
(lá era outono, e agora é outono por aqui)
e que dentro de poucos meses conhecerei o Índico
mesmo assim eu ainda carrego problemas
em usar palavras antigas
como pranto que rima com o quebranto
que acho que é o que estou sentindo
embora não saiba se isto é só uma nódoa
um anzol ou meu velho hábito de me meter
em maus lençóis, como dizem, eu prefiro
algodão ou linho pois eu sempre me enovelo tanto
no pouco tudo em que me envolvo o seu nome
aparece que eu tenho tanto você
como pude eu, poeta, perder o ritmo
forçar os enjambement pra cima do nível
do aceitável tropeçar
na brisa que respiro
navegar o galope
eu já posso dizer o que eu sei
posso considerar que a vida é um eterno
dar biziu curto-circuito ou tilt
e nas faíscas do dia a dia eu espero
um dia dar em clarão, pessegueiro
tomando a luz dum sol
nítido e manso e morno.
embora um senso exacerbado de estratégia
nunca fui muito boa com dimensões
não sei dizer o tamanho de nada
embora saiba o tempo que se leva de um lugar a outro
com os números tenho o hábito de não calculá-los
e geometrias só me interessam as que formam os astros
no ponto de vista da terra
entre o perto e o longe a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa
eu me atenho a ter a ciência
de respirar na frequência
dos satélites que se movimentam
em órbitas regulares
e estudo tanto cada gesto ou cada passo
e sei que mesmo assim a qualquer instante algo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga
ou uma abelha zunindo no teu cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem meu eu ruidoso
o corpo como um enxame
zunindo na direção oposta ao meu caminho
quando o dia terminou eu pensei que não pediria outra coisa
além da noite cobrindo de escuro
se aproximando de mim
tudo o que eu desconheço
sem que eu veja
ou tenha controle
porque eu vivo.
e o que é vivo prolifera.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Peixes

desde que o sol entrou em Peixes, sem pensar muito claramente fui deixando fluir este texto. acabo por escrevê-lo neste domingo, num momento em que tenho espaço emocional & acabou de acontecer a lua cheia no eixo de oposição complementar que Peixes forma com Virgem. coesão e silêncio, purificação e prazer, dispersão e rigor estão conversando nos céus. pelos vistos para escrever sobre Peixes eu precisava mesmo de um dia em que êxtase e critério estão em questão como hoje. Peixes têm isso: ritmo.

com seus irmãos Câncer e Escorpião, Peixes é um signo de água, signo portanto de emoção, comoção: mutualidade. mais que mutualidade: comunhão: onde os ritmos de dentro e os ritmos de fora da gente são uma mesma coisa. isto também é algo que nos ensina o signo de Peixes. porque, verdadeiramente, sinto que nós temos todos o que aprender com eles, os últimos, os derradeiros, os que passaram por tudo e que são tudo e (ao mesmo tempo) são o vazio. mas não é preciso se curvar para aprender algo com Peixes, nem eles precisam formular opiniões, métodos e verdades como seus primos mutáveis (Gêmeos, Virgem, Sagitário) passam a vida a fazer. é caso de simplesmente se aproximar e deixar fluir, intuir, sentir. sensibilizar, contaminar.

se Peixes se aproxima, encosta e revela sua capacidade de mutualidade imediata. "minha especialidade é a metamorfose" alguém pisciano poderia dizer com afeto, enquanto foge da sua incapacidade de separar as próprias coisas e os problemas dos outros das próprias questões. personalidades piscianas estão sempre a fazer algo pelo outro e às vezes sem nem perceber. muitas vezes é bondade, às vezes é indulgência, ou inconsciência.

podem fazer isso pela compaixão intrínseca que carregam, uma compaixão por vezes sofredora como a de Cristo, em outras liberta como Buda; ou podem fazer pelos outros (perigo!) por uma alienação da capacidade de decidirem o próprio rumo, ou de se aperceberem das próprias sensibilidades. Peixes é tão sensível que às vezes para descansar de si procura anestesias. é compreensível, mas nada é mais perigoso para Peixes do que deixar de sentir.

pessoas com ênfase no signo de Peixes têm que se proteger. corpo/espírito/mente/emoção são uma mesma coisa. seja brisa ou furacão todo movimento ao redor altera os fluxos das ondas, e Peixes está sempre no plural: indo para múltiplos lados. e Peixes que não encontra a própria força de vontade é mais perigoso que rodamoinho no mar.

não quero dizer com essas coisas que piscianos não possam ser bravos. suas altíssimas capacidades de aceitação e perdão vão até depois do depois do perdão, mas uma pessoa de Peixes que seja invadida ou tomada pela revolta pode fincar seu tridente como o mar que avança sem nunca retroceder. tsunamis, mares de ressaca, fúrias sem sentido muito aparente que arrastam tudo o que não quer ser levado. Peixes leva. e embora leve raramente em fúria, Peixes mais naturalmente leva tanto que pode até ludibriar, a lábia da sua postura conciliadora, redentora e/ou de sedução.

sedutores e dramáticos. como sofrem em silêncio, como sofrem em lágrimas. sofrem. e Peixes precisa escutar o próprio sofrimento. precisa aprender a ouvir e a cuidar de seu corpo/espírito/mente/emoção pra não ficar só no blue blue blue, sozinho no fundo da escuridão do mar.

mas Peixes também precisa de alguma solidão pra se recompor, pois em qualquer ambiente Peixes é a antena e a esponja. a capacidade de absorção pisciana é do tamanho do mar inteiro. com isto, Peixes precisa buscar nitidez e algo me diz que o modo de consegui-la passa por criar consigo mesmo a mesma mutualidade que tem, sem mediação, com o fora. Peixes não tem filtro. Peixes tem e precisa de vida interior.

muitas vezes que vejo piscianos sofrendo e desesperados tenho a impressão de que eles não estão exatamente confusos: estão poluídos, contaminados. com isto, todas as formas de cura energética, das psicologias às massagens, das meditações aos xamanismos, isto sem falar nas práticas espirituais sagradas ou não, os processos simbólicos, as festas onde os egos se perdem, os êxtases reveladores das alterações da consciência, todas podem ser recomendadas e serem proveitosas para Peixes.

mistério sempre há de pintar por aí e Peixes têm sempre sempre sempre que limpar, purificar. e quando fazem isto: que calma e paciência antiga possuem de espírito & alma. porque, claro, se há signo que tem espírito e alma, este signo é Peixes. Peixes abarca, Peixes é o colo de Iemanjá.

isto pra dizer que de modo algum a limpeza pisciana se dará de modo higienista e criterioso como seu oposto complementar que é Virgem. Virgem cria meios e modos, Peixes é a entrega à perda de conceitos e às vezes isto mesmo, um pouco de caos ajuda Peixes a se encontrar. a convivência tranquila com sua mutualidade a tudo, às vezes é o suficiente para fazer com que um pisciano se purifique. sendo ambos os signos da cura, Peixes divide com Virgem o eixo da medicina, e com esta responsabilidade certamente é importante que Peixes se firme no espaço-tempo do próprio corpo, mas isto dificilmente se dará por alguma via rigorosa, restritiva. mais proveitoso é acalentar, acolher a própria sensibilidade. Peixes é sensibilidade. é a dança.

signo de silêncio e de escuta, Peixes é música, os poros abertos, os pés ágeis. Peixes ouvem com a pele e muitas vezes se tem o costume de chamar a atenção dos piscianos por eles perderem o contorno da realidade, seja através de drogas, das artes, da loucura. sempre na borda entre o lá e cá, a supraconsciência do delírio, os escapismos, as fugas, as imaginações: Peixes é suscetível. também ao medo de se perder na imensidão. que desespero, mas desconfio às vezes que Peixes se perde para compor-se, para compor.

provavelmente exagero de afeto: mas Peixes parece mesmo inclinado ao poético, a uma capacidade lírica de articular sentido e emoção, imagem e transcendência. com meu ascendente em Peixes e sendo neta, tia, irmã, nora e melhor amiga de cardumes de piscianos sou suspeita, sou por eles encantada. mas quem resistiria? não é o que fazem com todos que se entregam a sensibilidade?

às vezes entendo que a gente vive numa sociedade sistemática e rígida demais para Peixes. quantas vezes atendo piscianos diagnosticados com rótulos diversos, dos psiquiátricos aos espirituais, e tenho a impressão de que nenhuma tarja dará conta de explicar a um pisciano a sua própria sensibilidade. é preciso muito convívio e cuidado. e às vezes acho mesmo, que em termos sociais, temos muito o que aprender com Peixes, enquanto eles correm cotidianamente o risco do descontrole pessoal ou de servirem de epicentro para os sintomas sociais. signo de somatizações, se algo não vai bem em corpo/espírito/emoção todo o sistema cai, seja em doenças psíquicas ou em problemas de imunidade.

dotados de humor como todos os signos mutáveis, a mesma dispersão que às vezes atravessa seus calendários é a diversão que consagram, por não terem medo da falta de sentido, tudo está tão interligado que também são capazes de dar sentido a tudo. são os reis do nonsense. e quem diz que Peixes é desligado não sacou nada. estão é ligados noutra respiração, seja a própria, seja da consciência vegetal ao lado, a observação de um chacra ou de um cartão postal. Peixes viaja.

um dos signos ligados ao êxtase, Peixes é a falta de fronteiras entre os corpos, os planos reais e imaginários da vida, o que não faz sentido pra Peixes é tentar controlar as sensibilidades em certo e errado. Peixes pode nos ensinar que se tratarmos as coisas objetivamente chegaremos cansados de tanto pensar. e que pensar ainda não é sentir. ou seja: relaxa.

Peixes atravessam todas as finas camadas das energias vivas, penetram fluidos em cada sensação e sentem, sentem a existência de cada ser (i)material dos espaço-tempo. e fazem tudo isto de modo passivo, quer dizer, sem perceber que são atravessados por tudo que atravessam e travessia, travessia: Peixes são os vínculos, os transmissores da simultaneidade.

todo Peixes é uma coragem rara, uma coragem terna e delicada: a coragem de ser sensível.

quinta-feira, 9 de março de 2017

De madrugada meu pai me enviou um poema
e sonhou com a minha bisavó que gostava de plantas e o marido criava cavalos
minha avó morreu nas minhas mãos
minha avó tinha ouvido absoluto
minha mãe tem fobia de encontrar um bloco de carnaval no meio da rua
já meu irmão se incendiou
e minha sobrinha faz planejamentos de organização dos brinquedos
hoje é aniversário da minha tia
minha irmã trata muito bem pessoas que não são loucas o bastante
meu tataravô morreu queimado pelo fogo que ele mesmo ateou e voltou pelas suas costas
há quem venha de Aruanda
e meu marido vai pras ilhas Maurício
meus padrinhos mudaram ontem para o Brasil
meus amigos vão ter uma filha
dia desses leram meu livro descendo o Amazonas
meu professor tem se transformado
muitos dos dias tem me escrito
as pessoas
todos os dias me procuram
meu amigo terminou seu disco
meu amigo saiu do grupo
meu amigo vai lançar seu livro
meu amigo conseguiu um emprego
e só os céus sabem como ele é miserável agora
minha amiga comprou um apartamento e não sabe onde vai viver
minha amiga vai cantar na Bélgica
e não sei bem quando a minha amiga volta da Polônia
minha amiga está novamente apaixonada por ela
uma menina que conheço deu um basta no ex-machista e eu torço pra que não voltem
enquanto meu amigo tem feito cerâmicas com fogo pra impedir que o luto avance sobre ele
em cima da mesa do escritório meu sogro está em Goa, em Angola, nas fotografias
meu irmão está em Belém
minha amiga saiu do retiro e marcou de ler seu mapa
vamos nos encontrar pra tomar qualquer tipo de chá
meu amigo contou que sua filha viu unicórnios entre os emojis usados no seu celular e disse que o ama papai
eu mesma escolho bem as minhas figurinhas
meu sobrinho está quase adolescente
meu sobrinho tem uma namorada de nome sabedoria
minha sobrinha entrou na faculdade
meu avô comia ovo todas as manhãs como eu que hoje não comi e fiquei mau humorada
meu avô era pai de santo livre como ninguém
e eu herdei muita coisa
mas meu mau humor é algo que não desejo (a quase) ninguém
neste momento mesmo alguém que conheço deve descer em Santa Apolônia
e pensar que a vida é tão difícil mas essa luz sem conhaque a nitidez dos dias
ilumina
não sou ninguém
sem eles e com eles
sou alguém a estar neles.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

o tempo que se leva para atravessar o oceano
não é o tempo que se leva para uma vida se compor
e é sempre tempo de se abrir janelas
para o vento levar os papéis velhos
as intrigas que mofam a todos
é o tempo de se escorrer nas réstias da luz
atravessar esta cidade que não me reconhece
os mais antigos medos da desaparição
do amor, dos vínculos e da gratidão
eu posso dizer
de certeza
que estão todos aqui
embora em menos silêncio do que o necessário
nos faremos ritmo e salsugem
e as coisas que acontecem são as coisas que acontecem
terríveis aventuras
chamem de acaso ou coincidência
a solidão se desmontando e oxidando
o tempo que nos resta até a escuridão.
a terra se abra para quem a pisa
com força
capaz de alterar o mundo
perde a rotação
na órbita que não girou a tempo
no tempo presente
a gravidade se perde de tanto que perde você perde a capacidade de ver
achando que perdeu um olho
como eu perdi
perdi a capacidade de decidir
qualquer coisa
pois as coisas decidiram por mim
tão rápida e alheia a realidade
encarada sem ênfase
que dor nos ombros
mas pelo enorme senso de realidade
não perdi meu passaporte
e pude entrar com tudo
em todas as coisas
e não perdi a sorte
de ter em todas as coisas
sorte
embora essa dor nos músculos
e ao descer a rua a certeza de que iria cair
na rua do sol ao rato
não iria escorregar
eu iria cair
cair na mórbida nitidez desta estação
em que com a sua força
o mundo foi parar
nós mesmos, com tanta força
desistimos
e eu insistia em levar flores
para alguém que acolhe
dos acontecimentos
o só poder estar
no eixo vivo desta carne
tensa assustada e comunicante
sobretudo de olhos ouvidos
o coração muito aberto
não por opção rasgado inteiro
pleno de necessidade
presente
É bom que nosso amor vá ganhando
assim uma dimensão humana
que a gente não tenha que atravessar paredes
mas só as correntezas, as colinas
os dias em que neblina na descida
ao subterrâneo de nós mesmos
— e, sem dilaceração, convivemos.
A curva dos dias que se tornaram anos
mostra que o ponto de um ponto ao outro
em nada retilíneo
desenhou um círculo entre nós.
Isto a cada dia me acalma
conforme as fúrias e suas ventas
arrancam aos pedaços
os horizontes, as perspectivas
com pouco ou nenhum interesse
no que nos acontece
tenho todos os dias as mãos cortadas.
Dia desses fritava um hambúrguer
quando o fogo subiu pra cima da frigideira
e aquele pequeno incêndio que eu vi
eu pude assoprá-lo sem precipitação.
Confesso que, quando deu certo, tremi
um pouco nas bases, mas não deixei
que se instalasse o desespero
dos que estão imersos no destino.
Um dia é cedo no mesmo dia é tarde
e a ventania não alivia o calor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A arte de se relacionar
se passa pelos olhos que veem
o que os gestos consentem
tácitos e benditos
sejam os explícitos
os que podem ser ditos
os que não se calam
os precipícios e os precipitados
discursos rios
sejam as fronteiras
nós os dois
despencando.

A arte de se relacionar relaciona-se
casualmente e despistada
com as gentes interiores
que dão muitos palpites imaginam
e fingem que esquecem
tantas as coisas as gentes interiores
ficam pensando.

A arte de se relacionar inclui
todos os assuntos
poderem se relacionar
uns aos outros ligados
existem pronomes inextinguíveis
respirações imprevistas colocações
vírgulas e pontos
a exclamação a interrogação
a vírgula de novo; e o fundamental
travessão, com o qual você pode
até falar neste poema
vem aqui, vou te mostrar
assim:

—                 .

O que você fala neste poema
eu não sei e se eu soubesse
também não falava assim
tão alto pra toda gente — ouve
que só me interesso pelo que é seu
é verdade eu mesma não sei
se sou ambidestra
ou se isto é ser só
mais uma pessoa torta
na arte de me relacionar
sou intransferível
insensível e coxa
uma flor da moita
o escuro zumbido
a contramão um retrocesso
serei eu desvio que destino
do acaso esta intempérie
chuva se fazendo na curva
da anca um arrepio que avança
na coluna, a cintura, tua cabeça.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

depois de meses sonhei com a minha avó, ela saindo de dentro duma sala de velório, vestida num manto azul, me dizia: "se não há pressa na morte, por que tanta pressa, por que tão apressada na vida?" e me dizia algo sobre relíquias, os seus valores, os modos de distinção entre elas e o lixo "que não é desperdício". ainda antes de se despedir dizia: "o amor é uma caixinha de música dos pulmões, é saber tocá-la com a respiração".

domingo, 12 de fevereiro de 2017

atualmente nos dias que quero descansar eu os passo reescrevendo os poemas do novo livro que não estou escrevendo e encontro uns versos tão inesperadamente cafonas como:

"o vácuo túnel disto denso dista inúmero número"
"onde é misturado nas línguas ondas salinas"
"você poderá mastigar o nada pois o tivemos em comum"


exagerados versos, como eu os esperei voltarem

*

engraçado, me lembro de bem criança olhar demoradamente os objetos que a minha mãe e também a minha avó guardavam em cima de suas cômodas, objetos tão diferentes, gostos e casas tão diferentes, num mesmo gesto em comum. eu passava imenso tempo a pegar neles, a observá-los como desconhecidos e pequenos exageros cheios de enigmas cores e desejos que os faziam ser relíquias para quem os guardava. minha mãe a minha avó, que tinham coisas que eu não sabia como entender o que teriam exatamente de bonito pra elas, mas que, justamente, por serem apreciados tornavam-se inesquecíveis pertences ligados ao afeto e (só hoje penso) tão próximos de uma cama, eróticos, como não? associo alguns dos versos que ando escrevendo a esses objetos.

*

estou contente de estarmos em 2017 neste ano que — ainda é fevereiro — já me alterou horizontes levou pessoas, isto sem falar na vida pós-golpe & nuvens de chumbo interstelares vem do subsolo deste país, vem da américa do oriente médio e do lado de lá também não está sendo fácil & vejo que estou escrevendo um livro sem respostas pra este tempo amargo presente - - - ou isto ou ele se passa no duradouro de todos os tempos no tempo: o amor & assim em todos os poemas se encenam os desejos de um corpo de mulher que, como todo corpo, se expressa como bem entender.
vinda do além-mar de uma destroçante experiência de proximidade com a morte (e alguma vez a morte não arrancaria de nós os pedaços?) e com a sensação de que o caos entrópico dos soterramentos tinha invadido algo ao redor de mim mesma, ao voltar & sem nem perceber abri todas as malas de uma vez espalhei pratos depois de comer por todos os cômodos nem me deixei jogar os kleenex fora reguei as plantas alimentei os gatos fumei três e coloquei música alta pra tocar & então percebi que, territorialmente, em questão de menos de 24h, não tinha um pedaço da minha casa que não estivesse bagunçado e terrivelmente complexo de organizar. tendo me dado conta disso, finalmente relaxei: o território era meu novamente, reconquistado, o espaço do caos havia tomado o lado de fora, o lado das coisas, um fora observável e, quiçá, talvez até legível. alguns a isto chamariam de lua em touro, outros de intuição; mas eu mesma tenho que ir, que agora estou a limpar as coisas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

estou sentada em cima das correspondências
burocráticas que se acumulam
o serviço de finanças quer o registro da sua nova morada
e eu ando especializada em não me assustar com nada
embora passe o tempo todo assustada
como se um dragão com sua língua de fogo
arrancasse o topo da minha cabeça
e num golpe retrocesso
não alcançasse a minha felicidade
mas retirasse do céu a lua que esfria
o topo das nossas cabeças
quando olhamos admirados ou não pra ela
tão antiga
a lua eu
então nunca mais arrefeço
com meu corpo que avança
e descansa onde der
em toda parte

domingo, 29 de janeiro de 2017

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

aquário

me surpreenderam algumas mensagens que recebi pedindo pra que eu escrevesse sobre o signo de Aquário. quiçá esperasse isso dos primos leoninos, ou dos irmãos librianos, mas um aquariano pedindo pra ler sobre si? é quase uma contradição em termos, dadas as populações inteiras que vivem num só indivíduo deste signo.

entendo Aquário como o signo dos muitos povos que nos habitam e que coexistem em simultaneidade. dos muitos povos por vir. vejo como se Aquário pegasse a raiz da ancestralidade escorpiana, transformada em tradição por capricórnio e, virando-a de ponta cabeça, noves fora o futuro a transformasse numa antena. o que deve ser transmitido é transbordante pelo ar: o que no pensamento é suficientemente coletivo pra que seja nítido entre todos.

também associo Aquário a um fio de nylon. pra além da tecnologia envolvida, o nome "ny-lon" é uma aglutinação das iniciais das capitais de New York and London. Aquário é a força de um fio que pode ser estendido da Inglaterra aos Estados Unidos e não arrebentar. e toda a ideia é tecida no invisível, afinal Aquário não é bem um fio de nylon: Aquário é onde já não é preciso a matéria de um fio. pra que situar-se na matéria se com ela Capricórnio já envelheceu tudo com suas normas? no pensamento e nas consciências não existem fronteiras, e Aquário são consciências juntas sintonizando utopia e liberdade.

capazes de aglutinar as mais diversas facetas numa só personalidade, um só aquariano seria capaz de ser caçador de capivaras mas só comer alimentos veganos, ouvir black metal e ser Ogan iniciado filho de santo, um curioso colecionador de borboletas e alfinetes. Aquário é um signo que dá tanto em místicos objetivos como em físicos esquecidos, podendo ser ambos ao mesmo tempo. estes seres melancólicos e bem humorados, radicais e controladores, misturas que Saturno e Urano, que Aquário tem por regentes, compõem.

sendo um signo altamente mental, Aquário tende a certa aridez afetiva na compreensão das emoções. o espaço mental de um aquariano é amplo como um deserto, os lúcidos são luminosos, sempre cristalizando o conhecimento de algo. fortes presenças de Aquário podem se esquecer das tripas que também somos, como se pudessem se ausentar do coração amplo que reina em Leão, do intenso baixo ventre de Escorpião e da voz na garganta do desejo de Touro e partirem pra cima consolidando com conceitos do que é o livre, do que é o novo, aquarianos são teóricos. passam por questões dos signos fixos, certamente, que têm aprendizados nas diferenças entre a teimosia e a obstinação, a duração e a solidez, a conquista e a imposição.

Aquário vem antes da liberação total e compassiva pisciana, muitos aquarianos são controladores que deixam os outros fazerem o que quiser. agora, quando mais que isto, quando permitem a si mesmos, quando Aquário dá pra aceitar o ser único que é, é cada vida que daria um romance! e como se divertem mais em viver quando ligam nas suas tecnologias um botão de não-estou-nem-aí pra isso de ser ou não ser único. aí Aquário pode se desvencilhar do narcisismo do eixo que forma com Leão e de brinde ainda ganha por escapar deixar de se sentir incomodado na sua insegurança.

Aquário é onde o Sol tem seu exílio. conversando com pessoas com fortes presenças aquarianas sempre sinto que há algum lugar naquela pessoa que é de vidro. quebram-se muito mais facilmente do que deixam transparecer e suas elegâncias e levezas podem ocultar mais nervosismo do que aparentam. quando deixam autoritarismos e autoridades de lado, são sensibilíssimos em suas compreensões e leituras do mundo, articulam capitais imaginárias entre todos os povos, são requintados nas artes de nos relacionarmos uns com os outros.

costumo brincar com meus amigos aquarianos dizendo que Aquário é o único signo do qual eu não entendo e que eles são os únicos do zodíaco que ao ouvirem um comentário como este podem se sentir contentes, elogiados, bem interpretados.



sábado, 21 de janeiro de 2017

pequena iluminação budista

Anos atrás o rapaz com quem
deixamos de ser virgens juntos
propôs que um dos primeiros exercícios
que faríamos juntos
seria nos colocarmos
um no lugar do outro.
Sem muito suor
isto criou um impasse
ilusionista como são todos
os impasses do desejo:
como iríamos juntos
parar um dentro do outro?
Se estávamos, se nascemos
e continuaremos separados?
E nos desdobramos tanto
em pensares, sem fazeres
que chegamos ao possível
colocar-se no lugar do outro
pela consciência
de se meditar
num outro
eu ele
sendo o mesmo
ponto.
Então nos perdemos.
Por que se eu me colocar
no lugar do outro
onde terei colocado o outro?
O outro é aquele o outro
que só se move
por si só.
 
ontem passei a noite com a ana cristina cesar, e o sparkling passado no céu da boca que ela me traz, passado tanto tempo, hoje em dia até eu já bebo a água com gás que antes achava amarga. tem alguns autores dos quais tenho receio de falar aqui no facebook porque sinto atmosferas de divinização do impacto que seus poemas causam que deixa as gentes meio paralisadas em frente deles. são mestres do efeito, é natural, mas eu, que certamente sou devota de ana cristina, não quero cair nessa.
voltei a pensar na ana cristina depois de uns dias vivendo em inglês em outubro passado, é curioso que certa dicção da justaposição (que banho delicioso de juntar tudo e mais um pouco que ela faz, sem nunca perder o charme da delicadeza) tenha voltado depois em meio da gagueira mental que sempre acontece quando começo a pensar em outra língua. foi assim, ouvindo outra língua que, depois de quase um ano sem, voltei a escrever.

*

só tenho conseguido ler à noite, no silêncio da madrugada. e tenho dormido quase todas as noites cedo, porque tenho trabalhado cedo, mas quando acontece um espaço, como hoje, passo a madrugada em silêncio com algum livro de poesia. ontem foi a ana cristina, hoje é a hilda hilst. uma semana atrás foi o cummings.

isto porque eu tenho procurado posturas gestuais, gestos rasantes e precisos, em poemas que eu já li algumas vezes, e que de repente me lembro deles e vou lá reler doze, quinze, dezoito, quarenta vezes, em voz alta baixa, de trás pra frente e pra trás. pulando voltando arfando gaguejando é sexo, a poesia. é sexo.

e o que é lindíssimo no que eu tenho encontrado é que os poemas me fazem sorrir pelos elegantes traços que ligam, pelos gestos da linguagem dançando, no maior espectro de emoções possíveis, como disse eliot falando de dante.

mas tudo é mais simples, o que eu quero dizer é que encontro nos poemas de amor o que se encontra de melhor, é que eles fazem sorrir mesmo a fingir que é dor, a dor que deveras sente.
como não estou escrevendo um livro de poemas de amor, é evidente que vou pesquisar o amor, e ao final do livro (que não estou escrevendo) terei relido todos os poemas de amor que eu puder lembrar que eles têm algo a me ensinar.

isto sem fazer pacote dos antepassados. a gente faz pacote demais pra poesia dos poetas que vieram antes. e tem muita gente que nem abre o pacote. e quem sabe sabe que já aprendemos com todas as últimas bolachas do pacote que o lance está em arrebentar todos os pacotes e comer misturadas todas as bolachas e ainda por cima não passar mal, e saber digeri-las.
ay bem haja a água com gás!

*

para ser culto um poeta não precisa comer todas as bolachas do pacote, e se pode nunca sequer ter visto um pacote e ser poeta, poetas do deserto, poetas da cidade, poetas afogados, haja pacote, haja poeta. e eu já estou ficando cansada disso tudo e vou pensar em outras coisas.

digamos que vou pensar na mulher de certa idade que me disse esta semana que morrer deve ser uma libertação, vou pensar em tudo o que ainda não sei o que significa a palavra transcendência, na navegação de todas as possibilidades impossíveis de amar, ouvirei os ruídos de uma lâmpada, e lembrarei das viagens que eu fiz e das que nunca fiz. isto, no poema. 

que é uma fornalha voraz que respira e não entende e pesquisa o mundo em tudo procura quais madeiras, papéis, gasolinas, queimam, não sei se mais rápido, nem mais forte, nem menos ou mais poderoso, gente: isto não interessa. o que interessa é o fogo, que alguém aprendeu a fazer, roubou dos deuses, sei e não sei, mas é o fogo o que o poema transmite.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

quase sempre é madrugada quando me lembro
desta arte de substratos que é a noite
e me lembro que a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam
os seres todos são passíveis de virarem e serem poemas
tal é o dom da metamorfose
do vice-versa
do troca-troca
do roça-roça
de uns versos com quem
lá lê ou é lido,
certamente, recebido
pelo texto em seu corpo
como alguém entra numa piscina
às vezes numa pirâmide às vezes num empecilho num pote de gelatina
mas é preciso ter onde entrar
no poema
ter por onde estar
e lá dentro abrir
como uma garganta
a voz de outro
que é você
sozinho neste mundo tão povoado
lendo este poema
amparado.

há este risco do silêncio, de não saber o que fazer com ele. e este coração imenso irradiante de ligações. talvez pelo buraquinho e sentou na minha mão. invadiu tomou pulsante e todo um silêncio, um ao redor onde não vai haver ninguém quando o dia acaba embora exista quem. o oceânico, não imaginava que netuno podia ser tão literal. e toda uma espera um mistério um voltar-se para si uma espessura e uma casca grossa de que ficou tudo lindo é preciso ter fé e ilustração. um amigo me chamou de idealista como o meu avô, então veja bem, eu encontrei o que era preciso para ser o entusiasmo. o entusiasmo da minha solidão? estar o dia todo no íntimo no mais íntimo dos mais íntimos e voltar da travessia para o meu deserto interior. fui adiante demais nos limites do prazer e encontrei esvaziado o lugar onde tudo é novelo e tenho aprendido a puxar a linha que engloba o novelo e não permite o nascimento do novilho. um carneiro me dando chifradas todos os dias quando passo em frente do seu estabelecimento. e eu passo todos os dias. e todos os dias eu tenho vontade novamente. acordo de manhã e quando coloco os pés na rua eu digo: olá rua, olá vida, vamos lá novamente. estou intacta. como nada fazer para o que é se aproximar como é? a generosidade que as coisas têm comigo de acontecerem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

quadrilha

dois homens já atravessaram o atlântico
me tendo entre seus argumentos
eu mesma atravessei por outro
e nenhum de nós era o mesmo 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"você me recebe sempre com mais alegria do que eu mereço", ouvi ao abrir a porta. já um outro amigo, astrólogo, me disse: "cuidado que este ano você tem uma tendência aos excessos", enquanto eu pensava "quando não?". acho que meu antigo psicanalista diria que tudo não passa de uma crise narcísica. eu tenho comprado lírios algumas vezes, narcisos não. criado diariamente hierarquias entre incêndios. dentro de algumas décadas tudo isto estará morto. os incêndios continuam. mas nada morre de fato, diz o meu faro que isto tudo continua sendo incompreensível e os enigmas são a cada dia mais claros. o enigma do carbono quando tão finamente se insinua em diamante.

tea for two

Tanto faz parte do destino
das mesas estarem entre nós
que sem fazer alarde
uma agulha enovela
zonzos de calor
a ternura e o risco
de uma criança que enfia o dedo no bolo
como você encaixa o dedo
no anel da xícara
enquanto retiro lentamente
do seu papel
um canudinho pra sugar a vida
este saquinho
de açúcar
pesando na mão
rasgo com os dentes
pondero, mas não sei calcular
nem ponho no suco demais
pois pode explodir
um coração
estou evitando
mas agora consigo ouvir
meu corpo
é capaz de quebrar
um copo atrás do balcão
farejar o gás vazando
abrir a porta e sair correndo
pelo tempo que nunca houve
mandar, quem sabe?, pedir
evacuar a área planetária
uma brecha na agenda
o gás alcança onde o ar atinge
se propaga a população mundial
nos níveis em que andam
as chuvas é um perigo
os postes as árvores caindo
as luzes todas piscando
que sorte com os ventos ter
esta conexão sem fios
atravessando os dias
crescendo como morangos
de sobremesa
que eu peço mas não sei se
tão doces como comer
com garfo ou colher
eu sou cheia de dedos.
às vezes tenho vontade de gritar PAREM DE ME DAR TRABALHO QUE EU GOSTO TANTO de você que poderia passar a tarde falando baixinho coisas que não interessariam a mais ninguém além das minhas bobagens eu gosto quando podemos nos distanciar e cada um num ponto do mapa perder-se até não o esquecimento mas o reencontro. o poderoso. o que sempre traz enigmas: os encontros. no último retiro que fiz eu quis trabalhar relacionamentos. enquanto conceitos, eu nem sabia, abri mais os canais. hoje encontrei alguém com quem passei o dia a falar da transcendência como modo de lidar com o controle. antes eu tinha conversado sobre capacidade analítica. outro dia falamos sobre medo de morrer. realmente, o trabalho que eu tenho é o mais interessante do mundo. nada me assusta você me assusta.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

leão

 
 
o homem que (talvez) mais tenha me amado na vida era do signo de Leão. só quem já foi amado por um leonino saberá o que quero dizer com isso. leonino quando ama, não tem o mistério dos seus primos escorpiões ou a necessidade de toca dos caranguejos. Leão? ama.

afinal Leão é regido pelo coração, eu sempre que leio o mapa de um leonino atravesso a metáfora do coração, quer dizer, bato palmas, batuco na mesa ou no peito, para lembrar: o teu estímulo vem do plexo solar. são luminosos, radiantes. nobres. e acreditam nisso.
 
entendo que Leão é sim, o canal em que a luz atravessa o mundo, e alguns leoninos confiam tanto em si mesmos que a ingenuidade os circunda, afinal Leão que quer buscar a luz do mundo pra ser só sua, morre ao vento, mas façam o que quiserem, pois são animais livres para exercerem o seu reinado. mas alguns, de tão fixados em si mesmos, quando bate um vento de mudança, tem leonino que morre engasgado pela própria juba. alguns os vão chamar de metidos, mas até disso, na imagem que fazem disso, um bom Leão há de se orgulhar. do olho misterioso, da boca que ruge grave.

dos fogos o fogo de Leão é a chama, incessante, ardendo, ardendo e ardendo. a arder. Leão é a força de vontade que sabe se concentrar sendo também instinto. certamente, pela roda do aprendizado que estabelece com Áries, o mais novo e Sagitário, o mais velho, Leão, signo fixo em seu meio, é o estabelecimento de uma estação. Leão é o centro do verão no hemisfério norte.

tem Leão que sobe caminho, faz da luz o que luz é: criação. afinal é o signo da criatividade, Leão veio ao mundo criar a partir do seu próprio peito coisas que carreguem a luz que leva no coração, coisas que importem na sua continuidade, de modo a irradiar da vida o que só a vida tem. leão não gosta da morte. Leão quer aumentar tanto a prole que conquista as felinas e felinos ao redor, mas se pular a cerca, fará convicto de que isto é a sua verdade, a sua natureza, de um modo semelhante a aquário que se conecta captando teorias que estão no ar, Leão descobre a verdade sintonizando com o próprio peito.

luz, verdade de Leão, é se estabelecer naquilo que faz seu coração bater como um tambor. prezam a honra, a lealdade, a confiança. alguns podem aparentar excesso de confiança justamente porque não a tem. afinal, nada é mais difícil do que ser si mesmo, e Leão, vivendo bem consigo, o consegue, pois o é.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

nosso amor talvez se debruce
n'algum ponto equidistante
entre o atlântico e o pacífico
encontre-se radialmente exposto
nas redes interestelares do porvir
esquecido dele mesmo e por isso
reiterado, maiúsculo & minúsculo
ritmado pelo coração e o conflito
das pequenas coisas que não sabemos
porquê.
nós, que nos atracamos todos os dias
segurando garfos e por baixo de telhas
comemos e envelhecemos e disputamos
todos os dias a imensa vaga de absurdo
que faz as ilhas flutuarem
existirem cataratas e caveiras
densas matas grossos muros
cataventos e edifícios
que você constrói
e eu escrevo
pois tudo o que o tempo rói
não será inaudível
não será mistério
nem será ruído
pois tudo que nos envolve
é um breve
tão simples
e contínuo
dizer que sim.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

gosto dessas madrugadas. passei grande parte da vida que já vivi achando que eu era uma pessoa notívaga e talvez eu até fosse, atravessei toda a adolescência com algum disco que pontiagudo fosse até o âmago de alguma densidade. anos depois também migrava pela noite dentro, até o reverso.

fumava, bebia água gelada, ouvia gal costa e janis joplin, coisas que não faço mais, ou não faço mais dessa forma. lentamente vou me tornando uma pessoa das manhãs, a cada ano acordo mais cedo. embora das noites eu goste, eu gosto delas tanto que permito que me comam, que me abocanhem. tem seu perigo.

tento, como eu tento e todos os dias, descultivar as angústias e eu tenho muitas angústias e as noites as ampliam como latifúndios em que é possível se caminhar. sou só um corpo pequeno no escuro, o escuro não é possível mapear. fechar os olhos, escutar.

e como eu gosto, gosto mesmo das madrugadas pós-feriados eufóricos, glutões, excessivos. eu adoro a madrugada que é agora: do 25 para o 26 de dezembro; ou a noite em que se vira do dia 1 de janeiro para o 2.

são noites infinitas silenciosas, enfastiadas, melancólicas, exaustas, enxutas. quando alguma ressaca de tudo que se viveu se apresenta numa corda bamba e há um mergulho no finito, no inevitável, que tranquilidade, parece que finalmente tudo dormiu.

faz silêncio essa noite e eu também.

domingo, 25 de dezembro de 2016

as partilhas do absurdo
não paravam
de chegar.
mas eram só três fios
os que nos ligavam um ao outro.
o primeiro deles ia pela serra até petrópolis
e caiu uma árvore na estrada e ficamos
através dele, desligados, sem conexão.
o segundo fio percorria a minha nuca
e ia até o estabelecimento da sua vida
fazendo a gente se dar de cara
ou fazia com que tudo que você pensa
venha parar
no azul escuro
que mora dentro de mim.
o mesmo azul escuro
que mora dentro de ti.
o terceiro fio nunca foi tecido.

domingo, 11 de dezembro de 2016

sucuri, jiboia


poética

herberto helder orava ser sempre um poeta obscuro, eu de acordo com e toda encruzilhada no rigor do claro enigma, peço para as 7 ondinhas todo ano saltando que elas me banhem de ingenuidade, delicadeza, ambiguidade e humor. às três ondinhas que sobram eu digo assim: todos os dias da minha vida mantém meu coração ingênuo perpetua o que eu não sei e me faz esquecer o resto. depois meto minha visão de raio-x na cabeça, pérolas nos ornamentos e começo a assobiar. quanto mais perto o verso estiver do assobio, é nisso, um dia eu ainda chego lá.

sábado, 3 de dezembro de 2016

quando você foi embora
não foi nem que eu quis morrer
eu morri
com um livro da clarice nas mãos
(era época em que eu sofria com livros nas mãos
hoje levo um celular
e tenho 2 dedos da mão direita ficando com tendinite
pelo peso do que carrego
todos os dias)
para o jardim botânico
fui ler "amor" no jardim botânico do rio de janeiro
onde "amor" se passa
eu chorava desalmadamente
eu me arrastava pelo chão
me contorcia em cima das rosas
só espinhos e dores de estômago
tinham as rosas naqueles dias
até hoje eu não entendo
o que me abismava tanto
no desejo que sentia
medo mais nenhum
um tremendo um infindo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

mora um novo ser em mim que não sei por onde é nem como se norteia mas que se chama coração 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

tá, me deixa mas 
vou te falar uma coisa bem sincera
já que o nosso amor
vem de outra era 
a baliza desta é a espera 
tá bom o vínculo deixa  
eu te dizer
vou ser bem sincera 
não, não é a primavera 
eu ligada assim em você 
é que não existe mais 
nesta esfera o que eu procure 
de nós dois nada nada a temer 
não tema 
que ainda sobre que ainda falte que ainda haja o que dizer que ainda 
se elabore o ainda 
a minha fera 
é tigrada fingida 
a minha bala migrada 
eu atingida 
sou um espelho que se espelha em cacos de um espelho espelhado 
migrarei para dentro do espelho 
e vou renascer em lago 
eu não consigo te dizer o que estou procurando dizer
em ti 
um alicate uma tesoura um nunca mais  
por favor não diz nada que me meta objetivamente numa coisa objetiva o objetivo o objeto o obtido o bocejo 
sim eu estou por todo o lado e por todos os lados eu estou sem você 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

vive em mim uma pessoa muito passional
nos dias ímpares ela se liberta
nos pares ela se comporta
essa pessoa toma sol no caminho do trabalho
cumprimenta com delicadeza
escancara com cumplicidade
duvida com confiança
tem armadilha lance coice travesseiro peito
pede comida delivery
abre a janela escancara a porta
escancara os dentes a minha pessoa muito
passional diverge de si mesma
estabelece prioridades imediatas
convive com seus poemas antes de escrevê-los
dia sim dia não o nome de alguém esquece
a minha pessoa muito passional o fogo ligado
e ainda volta mais cedo pra casa pra tirar o lixo
alimentar os gatos a minha pessoa passional
adora alimentar
as veias de gordura os vasos com adubo
o rigor dos astutos
não assusta a minha pessoa
o escuro
a morte
o amor a minha pessoa passional
não conhece nada disso
a minha pessoa muito passional
não aprende
mas esquece
e dura como dura como é dura a minha pessoa
de carne mole sangue fresco corpo vivo
muito passional a minha pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ela me disse "troquei seu nome para 'ninguém' nos meus contatos" & saiu lúdica e lúcida sem dever uma chamada, uma mensagem ou uma massagem. onde tudo é esquecimento os burros foram dar na minha agenda e sem que ela pudesse sequer pensar em se afogar, duas horas no sofá e uma paz certeira na certeza vá embora desate fique a boiar como uma terra no espaço rodando uma balsa atravessando o canal ou a ilha da tranquilidade afundando. 
o nunca mais mora muito longe 
não tem nada dentro dele além de frio 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

isto aqui funciona como os emails
se envio sem reler
é porque tá pronto
acho homens com um pouco de crivo descuidado charmosos, com muito crivo deliciosos, com crivo e timidez incríveis, com crivo e um belo rosto aliás, é uma coisa de louco. não me movimento na direção deles pois eles estão sempre cansados de tanto crivo que tem. quanto mais crivo eles carregam mais eu sinto que as chaves de fenda deles abrem todas as minhas cinturas. não que eu deixe alguém com um pedaço de metal se aproximar de mim, não. eu afasto tudo que é armamento com a respiração do meu pensamento. mas não desarmo as bombas, eu as estico entre as minhas canelas, eu desmonto o mecanismo do armamento e perco as mãos, nunca troco as palavras e esta articulação me custa uma dor na mandíbula que aumenta quando eu durmo pouco, estou para menstruar ou esqueci a caixa de ferramentas em casa, o que praticamente nunca tem acontecido, porque eu desci com tudo pronto de dentro da cabeça do meu pai que é também uma nave alienígena que foi dar no calor da minha mãe e pena que eu não nasci boêmia, não sei porque isso referido agora.

em que a aurora atravessa a primavera

eu poderia falar outras coisas também, contar da amplitude de sentido que me mostrou um sacerdote uns dias atrás, ele me abriu como um machado, coisa que ninguém faz, ele entrou onde ninguém absolutamente entra nunca além de mim e alguns ícaros ele chegou lá com as palavras ele me disse aprenda entenda estude arrisque o direito a lei o direito entenda até conseguir direcionamento direcione direcione eu nem entendi direito mas eu entendi tudíssimo tudinho eu já tinha visto mas ele foi com um bisturi com uma alavanca derrubou a porta mas como uma revoada também agitou muita pequena coisa à toa e eu entendi mais uma vez que a senhora de tudo dentro de mim é tão inteligente que pode até, ocultar-se num búfalo deixar-se desaparecer em nome do nosso destino que é um só caminho um só caminho e também não é o caminho do mar, é o caminho do rio, ser assim, leito de corredeira doçura hoje mamãe foi lá me visitar eu deitei também, deixei passar, não é todo dia que mamãe assim essa não minha e presente numa alteridade do que não sei ser colher colher tanta pequena coisa tão juntinha é tão ternura isso também a ternura a ternura a ternura mora tanto desapego na ternura eu aprendendo que falta tanta coisa tanta coisa e um redemoinho que desagua em flecha tão bom não precisar fazer sentido e, assim mesmo, fazer tanto. 

sei que às vezes, em nome do enorme, eu fico um tanto simplista: tanto que fui fazer outra coisa e me esqueci do que eu ia dizer aqui.

em que a autora expõe seu veredicto final e descansa

uma alternância de velocidades, talvez até uma dificuldade de perceber o que é velocidade. ando bem interessada nessa palavra, também. a velocidade toma toda forma de inconsequência consequente, vivendo da transformação energética. por exemplo, é uma velocidade a minha preguiça de pensar, de fato, sobre "velocidade", mas este cinismo é só cansaço mesmo. evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido. ai ai ai quem dera. olha o cinismo de novo.

mas eu vou enfrentar esse medo de escrever de fato, porque eu vou começar, eu já comecei, eu já voltei a escrever, até mesmo a te escrever eu já voltei duas vezes por uma mesma porta eu me perdi mas eu nunca nunca estive tão certa de algumas coisas dentro das minhas partes imediatas e mediadas também. uma nova mudança em breve, vai acontecer.

por exemplo me dar uns minutos por semana pra escrever aqui no meu blogue e simplesmente deixar os dígitos rolarem tipo neeeeeeeeeem aí se alguém está lendo se não está. eu gosto dessa indisciplina e mais até do que isso: eu preciso. por favor, tudo que eu menos quero é me tornar escritora profissional, eu só escrevo porque eu preciso eu quero eu necessito me perder todos os dias um pouco. umas semanas atrás na ponte do Sumaré tinham uns lambes colados dizendo SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO eu olhei aquilo, eu hein, me deu uma raiva, eu tive vontade de enfiar o seja você mesmo não vou nem dizer onde de quem fez aquilo, porque vocês sabem onde é. quem sabe assim nos entenderíamos melhor.

a ana cristina já renasceu em mim eu agora vou numa mesa branca receber a clarice e já volto. pronto, fui, voltei, estamos aqui as três e nenhuma de nós sabe muito bem onde colocar as mãos. a primeira a resolver isto é clarice, sagitariana e confiante, coloca as mãos em cima da barriga e solta um miado. clarice começa a se lamber a barriga e quando, de repente, se assusta, diz algo muito acutilante e terno em direção a ana cristina, que a beija na boca enquanto tira um brigadeiro e põe debaixo dos meus cílios. percebo que é um brigadeiro envenenado, ana querida, mas como assim mesmo, estava uma delícia, querida, quererá ainda me matar? 

ele também não sabe o que fazer então não faz nada. as decisões prudentes as intermitências do tempo as analíticas posições do esfriamento os esfriamentos das posições as travas do destino as carrancas dos meus guias as fronteiras da minha força o fogo eterno pra consumir o inferno fora daqui & eu como devoto, trago um cesto de alegrias de quintal

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Levo com ternura as coisas preciosas que você me entregou
como as desconhecia não sei bem de que material são feitas
madrepérola barquinho de papel carne e passado
onde as colocar se nem cabem nos armários que divido
com o mundo as misturarei
no barro levado pelas enxurradas
asas para voar nos dias sem horizonte
um punhal para abrir a correspondência
eu carrego junto ao peito feito amuleto
amaciando os joelhos os tijolos sem metafísica estalam
as estruturas na esperança de que tudo estará desencontrado
e um travesseiro deita o meu pescoço no teu esquecimento
há embriaguez para as noites sem fumo
para as noites de lua todas as canções
dos compositores de destinos eu sopro
as melodias no vento que desce a rua
o vento em que me torno para te ensurdecer
me enovela me envolve e me acolhe
feito uma capa para os dias nublados
o sol volta a esquentar a nuca dos gatos
no parapeito da janela uma vontade de nunca mais
rodar as engrenagens que rodam as folhinhas dos calendários
já não se usam mais a não ser em alguma parte
onde também o nosso amor insiste
aberto pela temporada de chuvas
fechado sempre que é primavera.
raramente me pergunto porque isto não desaparece
sinto simplesmente uma rarefeita forma de loucura
um incêndio agitado um calor exatamente baixo
como a temperatura que caiu
e se não se entra duas vezes num mesmo rio
divirto-me à beça nos dias ao redor
e tu também
atravessou o mar pra me ver
uma espaçonave
que vagasse incandescente
me norteava mais do que a mim mesma
não sei porque nos despedimos na primavera

domingo, 30 de outubro de 2016

desde 1984 é a primeira vez
que eu me sento
onde o corpo expande 10 metros
antes ainda do pensamento
os gigantes não me assustam mais


também conhecida como a mulher
polvo gameleira
ela resolve descansar
para isso passa os dias enviando convites

como já não sabe mais escrever
quando ela se senta ela escreve
sobre o tempo em que se sente
o tempo todo agitada
como se a habitasse
outra encadeada
grande sorte
arrebentar-se-á até as estruturas
sem partir um osso
te desconcentrar

de lamúrias e desistências
camisas e gatilhos
as relações estão cheias

fui reler o que escrevi 10 anos atrás.
era interessante essa época
eu passava o tempo
a explicar o que os textos faziam.
e isto me ensinou a dedilhar
como uma harpa uma faca um cardume
não são a mesma coisa
mas são.

passo o domingo a ler poetas
cujos nomes não sei pronunciar em voz alta
mas cada uma das letras que eles grafaram
eles escreveram para mim
remetidas e atrevidas
como estas, eu
são para ti

quando eu irremediavelmente
me perdi
nascendo
tempo verbal contínuo
que exige um eu

o eu toma ar
o eu recua dez passos
o fôlego respira como uma bandeira branca
que instaurasse
o salário diário de 7.000 fotões & 0 rancores
entre os intermediários
que nos levam e trazem
oxigênio, e-mails e sensações

pois eu me esqueci de tudo
que era sabedoria eu já não tinha
e eu aprendi
embora todo o universo
se alimente das trocas de mensagens
é mais difícil decifrar suas consequências
do que ler nos gestos
de aborígenes dançando
o ritmo dos corvos
a língua do futuro nos céus

eu visitei
a língua do futuro nos céus
e voltei para ver o Pacífico
e ele era como o Atlântico.
nós viemos dele

sempre na origem
sinto-me uma raiz de gengibre
e já nos aconteceu antes.
a minha letra mudou.
aquele homem 
que não se esquece 
atravessa a river
he cries a little bit 
no porvir 
eu lhe devoto 
o fogo 

*

aquele homem a quem nunca 
escrevi envia
um e-mail 
para esta travessia 
celeste 

enquanto eu descubro 
a claridade luminosa 
de São Francisco 
e tudo que ele aprendeu 
com os animais 

*
não veio de lá 
nem veio daqui 
também não é dele 
o meu lugar 

estou todo dia com ele 
onde ele não está 
sei que há um pedaço em mim
que é só seu 

*

I will devir fera de pelúcia 
nos dois sides 
de mim 

*

e se alguém procurar por mim 
suba as montanhas 

*

hoje acordei com um corvo cantando 
it was a pleasure 


*

sinto nas mãos como comer geléia de strawberry tomada num canudinho 

*

it's the second time 
nesta vida 
que isto me aparece 
quando não consigo escrever um
poema 

*

embora todo o universo 
se alimente das trocas de mensagens
é mais difícil decifrar suas consequências 
do que ler nos gestos 
de aborígenes dançando 
o ritmo dos corvos 
a língua do futuro nos céus  



- [ ] 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

senti primeiro o coração com uma vontade de me dizer coisas 
eram um lampejo de brilhos 
uma tranquilidade 
passiflora 

amarguei o que não era virtude neste cansaço me deixei ficar sem fazer nada além deste texto 

me achei longe demais de algumas coisas que não quero ficar longe 
coisas que eu quero aprender 
e os caminhos mudaram 

por anos amei e quis e não sabia nem onde
muito bem por onde passava este vínculo
verde 

hoje ainda não sei mas sinto uma porta 
se fechando uma sensação de dever 
por hábito mais que prazer mais que descoberta 

por muito tempo tudo entre nós foi descoberta 

e eu sou grata
só faz dia e já sinto saudades
de tragar  
mas umas gotas 
me abrem para o bambuzal 
da minha infância 
atrás das quadras de tênis 
tão perto do córrego ali 
passavam tantas coisas 
e eu achava que eram só as solas 
dos tênis 

e eu percebo que também se gastaram 
mas que meu cansaço é maior 
no seu uso 
presente 

imagino que um dia, querida, vamos nos despedir, querida, um dia vamos nos reencontrar também 

feito a luz de Maria que sei que minha avó viu ao morrer 

fazia algum tempo já que eu não me lembrava do seu rosto naquele exato momento em que nada era pacifico e no entanto havia a paz 

sinto-me leve presente e incompleta 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

não consigo entender como existiam cidades antes de existirem fones de ouvido tocando música para as atravessar.

*

percebi que faz um ano que só escuto música de macumba e que só escrevo quando estou andando na rua. não tento registrar. e pra além de ouvir música enquanto escrevo, gosto mesmo é de escutar música andando. e como tenho andado demais todos os dias, eu tenho escutado muita música de macumba, com muita concentração no caminho e nos ouvidos, enquanto escrevo com a minha respiração. acho que para quem escreve poesia são uma mesma coisa: o caminho e os ouvidos. os passos. sigo sem saber onde esta exposição ao som, aos ritmos, ao conhecimento emocional e espiritual, a cada uma das narrativas que vive nestas músicas e que são sempre sincrônicas umas às outras, quando isto tudo vai acabar por aparecer no que escrevo. isto tudo sem projeto. por prazer. por acaso-destino. assim, só por andar por um caminho ouvindo tais potências. observando. quem escreve respira. as árvores são os seres que mais respiram nas ruas que tenho andado. por enquanto eu estou respirando. 

sábado, 24 de setembro de 2016

caleidoscópio

ou uma noite que sonhei com meu primeiro beijo
e me imaginei muito velha escrevendo a minha autobiografia
(que certamente escreverei um dia, já se nota)
e no lugar muito luminoso a quadra onde jogávamos
tive um espasmo tão absorto que foi
onde era timidez
os músculos se contraindo todos juntos, soltando
soltando juntos também
uma novidade


sendo que na véspera eu havia sonhado com o corpo do meu pai aos pedaços no chão de uma sala de piso vermelho e só havia um lençol curto e insuficiente o bastante


 

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